Temos o prazer de apresentar como entrevistado especial deste mês de Maio o comentarista da Rádio Gaúcha e analista de desempenho, Gustavo Fogaça Guffo, que vem desempenhando papel de destaque na crônica gaúcha com uma proposta mais analítica, teórica e racional sobre o esporte bretão, oferecendo conceitos inovadores a nível de Brasil sobre o futebol e suas eternas discussões na mesa de bar. Imperdível!

Confiram abaixo a entrevista completa.

SOMOS COLORADOS: Atualmente muito se fala entre os torcedores e por vezes até na mídia sobre uma escola de treinadores “modernos”. Você poderia esclarecer o que seria exatamente e quais atributos formariam essa denominação? 

Mudou muita coisa nos processos de quem trabalha com futebol. Mudou a preparação física, a fisiologia, o método de treinamento tático e técnico, o planejamento da semana (periodização). O advento da análise de desempenho e suas ferramentas mostrou que há muito espaço para a ciência no esporte. Então, o conceito de “treinador moderno” não passa pela idade do profissional. Mas sim, pela capacidade de se renovar de acordo a essas mudanças nos processos do esporte. Tite é o maior exemplo disso. 

SOMOS COLORADOS: Você como jornalista estudioso do assunto percebe aquela argumentação em que tu observa uma opinião baseada sem argumentos, que como diria o filósofo Sócrates, sem premissas verdadeiras mas que são regularmente repetidas pelas pessoas, mídia e opinião pública?

O futebol tem espaço pra todo tipo de leitura. O torcedor pode ver e sentir o que ele bem quiser. Não podemos censurar a flauta, a corneta e a resenha de bar. Sem isso, o esporte morre. Agora, nós da imprensa temos a obrigação de falar e contar as coisas que existem, com didática e leveza, mas sem barrigadas ou achismos. Coisas como amplitude, pressing ou linha alta existem ou não existem? Se não existem, ok, deixa quieto e ninguém toca no assunto. Mas se existem, temos obrigação de falar delas.

SOMOS COLORADOS: Quais times atualmente te dão mais prazer de assistir a nível europeu e de Brasil? 

Nossa, são muitos. Eu gosto de todo tipo de futebol, desde que tenha ideias, organização e execução dessas ideais. O Napoli, o Mônaco, o Dortmund, Hoffenheim… o Chelsea do Conte é extraordinário, a Juventus do Allegri é o time mais equilibrado do mundo atualmente. Gosto de ver o trabalho dos treinadores, e vivemos a era dos treinadores. 

No Brasil, atualmente Mano Menezes e Roger Machado são os que mais me chamam atenção. Mas também tô gostando do que o Jair tá fazendo no Botafogo e o Zé no Flamengo.

SOMOS COLORADOS: Falando um pouco mais do contexto do Internacional, como tu avalia criticamente o trabalho do Zago até o momento? 

A gente tem que pensar no processo como um todo. Em relação ao ano passado, o trabalho é magnífico. O Inter saiu de um buraco, um campo vazio de ideias, uma verdadeira draga, para hoje ter esboços de um time de futebol. É um avanço, sem dúvidas. 

Vemos que Zago tem ideias e que está trabalhando para que o grupo as execute do jeito que ele gostaria. Mas claro, a herança passada é um complicador na velocidade do processo. Além disso, a chegada de novos atletas e a cobrança normal de um ano atípico para o clube, fazem tudo parecer muito devagar. Eu sempre disse que a torcida colorada vai precisar ter muita paciência e resiliência em 2017. A Serie B é muito, mas muito difícil. 

Mas a diretoria montou um elenco de primeira linha, com muitos recursos e opções para um treinador fazer um bom trabalho. Está nas mãos de Zago e sua comissão implantar suas ideias e alcançar os objetivos. Pela amostra do ano até aqui, acredito que conseguirá.

SOMOS COLORADOS: Entre os torcedores muito se critica o seu trabalho pela falta de um estilo de jogo (confesso que não consigo identificar a filosofia repassada pelo treinador em campo, modelo de jogo), você concorda com esse tipo de avaliação? 

Estamos em maio e já cabe fazer uma avaliação do desempenho do time. E sim, poderia estar mais evoluído. Eu começo a pensar que, ou Zago tem algumas dificuldades em passar as suas ideias com clareza, ou o elenco está com dificuldades de absorvê-las. Ou as duas coisas juntas! 

Vemos um modelo de jogo: posse de bola, aproximação, jogo apoiado pelas laterais e um finalizador mais de referência na frente. Vemos a preferência por 2 plataformas táticas: 4-3-2-1 e 4-4-2 em losango. Vemos algumas dinâmicas preferenciais: saída de 3 com um volante enterrado, D’Alessandro com liberdade para flutuar, amplitude dos laterais ao mesmo tempo. Enfim, há ideias sendo treinadas no Beira Rio. Se elas darão certo? Não sabemos. Mas pelo menos, há evolução em relação ao desastre que foi 2016.

SOMOS COLORADOS: Zago é criticado seguidamente por escalar erroneamente ou quando escala bem substituir equivocadamente, vê nele alguma dificuldade de leitura de jogo? 

Acho que o problema não é a leitura do jogo. A prova foi que ele leu bem os dois primeiros tempos das finais do Gauchão, mudou bem no intervalo e voltou avassalador no segundo tempo, marcando gols. Talvez o problema seja na proposta inicial mesmo.

Se o segundo tempo contra o Nóia no Beira Rio foi de muita intensidade e volume de jogo no 4-3-3, por que não repetir a mesma estratégia no começo do segundo jogo? Ele só foi fazer isso no segundo tempo do segundo jogo, depois de estar perdendo.

Percebo que o treinador sabe ler bem a partida. Talvez ainda lhe falte acertar mais as propostas inicias dos jogos.

SOMOS COLORADOS: Como explicaria a entrada de um jogador como Anselmo, existe alguma leitura em que os torcedores como um todo não conseguem atingir ou concorda que sua utilização é um equívoco? 

Não gosto de individualizar um atleta, seja pro bem ou pro mal. Isso por que o futebol é um esporte coletivo. Ninguém ganha ou vence sozinho. Nem o craque, nem o perna de pau. 

Se o atleta está habilitado fisicamente e corresponde nos treinos às ideias e comportamentos que o treinador quer, ele merece a chance de mostrar isso em campo nos jogos. Se durante as partidas ele não corresponde ao mostrado nos treinos, cabe ao treinador subsitui-lo por alguém que o faça. Simples assim. E serve tanto para um Messi da vida quanto para um Anselmo.

SOMOS COLORADOS: Quais os grandes dilemas para o Zago nesse início da Série B em um Inter que mostrou-se incapaz de vencer equipes como Caxias e Novo Hamburgo? (estilos de jogo parecidos na competição)

O Inter enfrentará enormes dificuldades na Serie B. Percebo que ainda não caiu a ficha para o clube e torcedores sobre o nível da competição. Tecnicamente, é muito fraco. Contra o Inter, os times vão ser super reativos, fechados, quebradores de bola, apostando em contra ataques, bolas paradas e nas bolas longas. É bom lembrar que nem Caxias e nem Novo Hamburgo jogaram o tempo inteiro assim. As duas equipes propuseram o jogo em vários momentos. 

Mas a verdade é que o Internacional já está classificado. Precisa apenas comprovar em campo. A estrutura, os salários, o elenco, a camisa, a torcida…tudo isso são armas que colocam o colorado muito acima dos seus adversários. Chega a ser injusto para os demais. Mas não será fácil. 

SOMOS COLORADOS: Para você a troca de treinador durante a temporada é sempre um erro ou cada caso é um caso?? 

É sempre um erro. Primeiro pela contratação. Quem contratou? Ao contratar, sabia o que estava contratando? Quais as ideias daquele treinador? Ele conhece o elenco? Eu vou dar tempo a ele para conhecer o elenco e vender suas ideias? Vou dar suporte a ele nos primeiros 6 meses, independente do que aconteça? Vou peitar os atletas quando eles quiserem puxar o tapete?

A verdade é que os problemas do futebol brasileiro começam e terminam em nossos dirigentes. A maioria são torcedores apaixonados que não entendem nada do esporte em si, e trabalham ou para ficarem ricos e poderosos, ou para o seus próprios egos. Todos morrem de medo de peitar os atletas e ir contra a torcida.

Eu não posso culpar o trabalho do Argel e do Roth. Eu tenho que culpar quem achou que eles trariam soluções. Quem foi lá e contratou. O trabalho de Argel era pobre de ideias, mas provavelmente não cairia pra segundona. Nunca saberemos, não vou ficar especulando. Mas posso sim afirmar que ter despedido Argel, os 5 jogos de Falcão e a era Swat/Roth foi o que derrubou o Inter. Não o trabalho dos 3, mas sim essa quebra com as contratações e as saídas dos três.

SOMOS COLORADOS: Com as opções do atual elenco, o Inter pode jogar sem D'alessandro?

Pode sim! O maior mérito de Diego Aguirre no Inter foi ter acabado com a “D’Alessandrodependencia”. Sem dúvidas El Cabezón é o craque, o maestro. Ele sempre será a solução, e não o problema. Mas Zago precisa criar mecanismos de criação onde ele se encaixe, e não o contrário.

E eu vejo isso acontecendo, no jogo apoiado de Uendel pela esquerda, de William pela direita, na movimentação de Nico Lopez…o Inter tem jogadores qualificados para fazer o time jogar bem sem depender de D’Alessandro.