Confira a entrevista do SCI.net com o colunista do site o Sr. Paulo Roberto Lontra. Advogado e colorado fanático, nascido em Porto Alegre há 68 anos, Lontra relata um pouco de sua história e de sua ligação com o Internacional: seus ídolos, jogos memoráveis, Gre-Nais inesquecíveis, principais conquistas e debate sobre à imprensa e os jornalistas que se dizem "Isentos".

1) Nome, profissão, onde nasceu?
Meu nome é Paulo Roberto Lontra, nasci em Porto Alegre há 68 anos atrás. Sou advogado, tenho como “hobbies”, leitura, filmes, plantas. Em termo de música, gosto de clássicos, dos Beatles, Cole Porter, jazz, blues, fox, tudo o que seja de boa qualidade.

2) É sócio do Inter? Em que setor do estádio frequenta?
Sou sócio do Inter, tenho duas cadeiras locadas, lado par. Gosto de ficar na parte central da arquibancada superior, daí a minha preferência pelas cadeiras locadas.

3) Por qual motivo se tornou colorado?
Tornei-me colorado há tanto tempo atrás, que nem consigo me lembrar como e nem por que. Desde que me conheço por gente, não me lembro de ter tido alguma preferência por outro clube. Aliás, sou Inter e nem tenho preferência por outro time, seja de que país for.

4) Lembra do primeiro jogo que assistiu do Inter? O primeiro no estádio, e o primeiro no rádio?
O primeiro jogo do Inter, de que me lembro, foi um amistoso contra o Botafogo do Rio de Janeiro, no Estádio dos Eucaliptos, assistido das arquibancadas do lado oposto à social e que, se não estou enganado, o Inter foi derrotado por 2 a 0. Isto lá pela década de 50. No rádio, lembro apenas as transmissões da Farroupilha, com a locução de Leonel Silveira e comentários de Rafael Merolillo. Engraçado é que o primeiro jogo de que tenho lembrança, transmitido por rádio, não é do Inter, mas da Seleção Brasileira num Sul Americano de 53, acho, contra o Equador, onde o Evaristo de Macedo fez uns 4 gols e o Brasil ganhou de 7 a 0. É engraçado que eu consigo recordar o nome do goleiro do Equador, Yu Lee, de origem chinesa. São episódios que ficam na memória, sabe-se lá por que. Infelizmente, do Inter eu não consigo lembrar qual foi o primeiro jogo pelo rádio.

5) Qual seu jogo(s) inesquecível?
Estranhamente, foi um amistoso contra o Santos de Pelé e Cia., ainda nos Eucaliptos, onde ganhamos por um placar impressionante de 4 a 0, em que o nome do jogo foi um jogador chamado Tite, que atuava no meio de campo. Não é o nosso ex-técnico, mas um jogador que veio de São Paulo e de quem nunca mais ouvi falar. O cara arrasou o time do Santos.
Outro jogo ? Os 5 a 2 no Grêmio, em pleno estádio deles, onde o baile foi algo de espantoso.

6) Pior jogo(s) do Inter para tí?
Contra o Boca Juniors em plena Bombonera, pela Copa Sul-Americana. O time não conseguia nem bater lateral. Não fizemos nada. Um horror.

7) Qual seu clássico(s) Gre-Nal inesquecível?
São tantos ! Além dos 5 x 2 que falei antes, o Grenal do Século , o do Gol Mil, com o Fernandão, os 4 a 1 no Brasileiro de 2008.

8) Qual foi a maior loucura que fizeste pelo Inter?
Como gurí fiz muitas loucuras próprias da idade e do fanatismo pelo time. De que me lembro, as idas ao Estádio dos Eucaliptos, às dez da manhã, com o sol queimando, para arranjar lugar em um jogo que começaria às 4 da tarde. Ou então, participar da famosa caravana de mais de 150 ônibus à Caxias do Sul, para ver o Inter contra o Juventude, onde despontavam o Sergio Galocha e o Claudiomiro. Ganhamos e retornamos à Porto Alegre, sujos, cansados e felizes. Loucuras que valiam a pena.

9) Quais teus ídolos particulares?
Meus ídolos particulares são aqueles que fizeram o nosso time chegar aonde chegou : Nena, Salvador, Carlitos, Paulinho, Oreco, Larri, Bodinho, Florindo, Flavio Bicudo, Figueroa, Falcão, Fernandão.

10) Qual título(s) mais marcou você?
O título que mais me marcou foi, sem dúvida alguma, o Mundial de 2006, contra o Barcelona, tido e havido como uma máquina de gols. Não teve máquina e o gol foi nosso. Uma consagração jamais acontecida por aqui.

12) Para você, ser colorado é: Ser colorado é ser feliz no Universo, parafraseando nosso poeta.

13) Você já chorou pelo Inter? Se sim, em que ocasião?
Já chorei pelo Inter em vários momentos, tanto nas vitórias como nas derrotas. Mas as lágrimas mais alegres foram na conquista do Mundial em 2006.

14) O que podes contar sobre a mudança do estádio Eucaliptos para o Gigante da Beira-rio, e se entendes que a partir disto houve um crescimento do Clube como Instituição?
A mudança do Estádio do Eucaliptos para o Beira–Rio foi fundamental para a ascensão do Inter à novas alturas. Até então jogavamos num estádio acanhado, já um tanto envelhecido e que já não conseguia conter o número sempre crescente de novos colorados.
Além disto, o Inter carecia de um local para realização de grandes eventos esportivos e que proporcionasse aos seus atletas, um local moderno para treinamento. Além disto, a inauguração do Beira-Rio foi uma resposta aos que chamavam o nosso sonho de “Bóia Cativa”. E, o crescimento do Inter foi visível, a partir do novo Estádio.

15) Na década de 70 formamos grandes times e obtivemos grandes conquistas. O que podes contar sobre esta década vitoriosa e o que faltou para a conquista da Libertadores nestes anos na sua opinião ?
Creio que o Inter desconhecia a sua força e a sua grandeza. Tinhamos talvez aquele complexo de “vira-latas” de que falava o Nelson Rodrigues a respeito da Seleção Brasileira. Por esta razão, embora tivesse uma equipe de primeira linha, na década de 70, inclusive ganhando três Campeonatos Brasileiros, um deles invicto, o Inter se apequenava e não aceitava a ideia de que poderia ser grande e enfrentar qualquer um, aqui ou no Exterior. Vou contar um fato que ilustra o conceito que o Inter gozava naquela década : Não me lembro se foi no final do Brasileirão de 76 ou 79, com o Inter Campeão. Eu estava no Rio, na ocasião em que um Combinado de jogadores de outras equipes brasileiras jogou contra o Inter, no Maracanã. Fui convidado para assistir o jogo nas cabines de rádio. O Inter fez 3 a 0 ligeirinho e depois relaxou, deixando que o Combinado empatasse. Final : 3 a 3. Um locutor da Rádio Mauá do Rio, sabendo que eu era gaúcho, me disse que Inter tinha deixado empatar para que não ficasse chato para o Combinado. Afinal de contas, era uma seleção de ótimos jogadores, mas o Inter era melhor, segundo ele. Por tais razões, não teve êxito nas Libertadores de que participou naqueles tempos.

16) Quais os momentos dos 101 anos de história do Inter consideras os mais marcantes?
O Rolo Compressor e os seus campeonatos, maior número de jogadores na Seleção Brasileira que ganhou o Panamericano de 1956, inauguração do Beira-Rio, Tricampeão Brasileiro em 75,75 e 79, Libertadores de 2006, Campeão Mundial FIFA em 2006 contra o Barcelona, com Ronaldinho e tudo.

17) O Inter sempre se caracterizou como sendo o clube do povo Rio Grande do Sul, hoje em dia, com todas mudanças ocorridas, crescimento do quadro social, acredita que essa marca ainda se encaixa no contexto atual gaúcho?
O Inter sempre foi o Clube do Povo do Rio Grande. Isto é inegável. Mas, assim como o Rio Grande mudou, com ele mudou o Inter, mas sem perder a sua vinculação popular. Creio que o Inter ainda é o Clube do Povo do Rio Grande e os seus cento e tantos mil sócios comprovam isto. Só que agora o Inter também é internacional, porque seus fãs se espalham por todos os lugares do mundo.

18) Após os títulos de 2006, muitos consideram essa equipe a maior da história, porém se esquecem da importância do Rolo Compressor,um marco na história do futebol Gaúcho e do Internacional, um time que atropelava os adversários, tinha grande qualidade ofensiva e muita força defensiva, tendo conquistado 8 estaduais em 9 anos. O que pensa sobre este tipo de afirmação? Já que cada grande time colorado teve suas respectivas épocas com características diferentes, poderia se equiparar em importância a equipe do Rolo com a do Mundial, tirando as diferenças de competições disputadas em cada época?
O que falar sobre o Rolo Compressor que ainda não tenha sido falado ao longo dos tempos. Aqueles que tiveram o privilégio de vê-lo jogar sabem que alí estava um time destinado a grandes conquistas e cujas façanhas iriam ficar perpetuadas nas páginas de livros e jornais e na memória de todos. Um pena que, naquela época, não havia um intercâmbio intenso entre times brasileiros e do exterior, e nem campeonatos nacionais que pudessem ter colocado na vitrine, um time de primeira linha, onde despontavam Ivo, Nena e Ilmo, Assis, Ávila e Abigail, Tesourinha, Adãozinho, Villalba, Ruy e Carlitos.

19) Quais jogadores considera como os melhores da história (tecnicamente falando)?
Melhores jogadores do Inter, do ponto de vista da técnica ? Salvador, Florindo, Larri, Enio Andrade, Figueroa, Falcão, Fernandão, dentre outros tantos que poderiam ser citados. O Inter sempre primou por ter jogadores de alta técnica em suas equipes.

20) Sobre a evolução nos escudos do clube, o que pensa sobre as recentes mudanças no logo do Inter? A coroa, posteriormente as estrelas e a borda com o nome escrito? O que acha sobre essas mudanças?
Ví a evolução dos escudos do Inter ao longo do tempo. Desde aquele com letras vermelhas, bem finas, em fundo branco, até o atual. Confesso que prefiro o atual, mais simples, discreto.

21) Se não fosse colorado, você seria:
Um aficionado do basquete ou de vôlei, porque não me vejo torcendo por outro time, aqui no nosso Estado.

22) O grêmio é:
O Grêmio é a pretensão, a soberba, com pés de barro. Vive da imitação de tudo o que faz o Inter. E imita mal.

23) Clube que não seja o Inter que mais respeita?
O São Paulo, por sua estrutura, seu poder econômico, sua capacidade de formar grandes times.

24) O que pensas sobre o trabalho da imprensa esportiva gaúcha. O tratamento dado aos clubes de Porto Alegre é o mesmo na sua opinião?
Tenho falado com certa insistência sobre o papel desempenhado pela nossa imprensa esportiva do Rio Grande do Sul. Um papel triste, porque luta desesperadamente para demonstrar uma “isenção” que não tem e nem pode ter. Em um Estado com dois clubes grandes, onde o fanatismo é visível e incontornável, como ser “isento”, a não ser num faz–de-conta que não engana ninguém e cuja contestação, quando feita, faz surgir uma furiosa defesa pela “liberdade de imprensa” ? Criou-se por aqui o mito da “Gangorra”, ou seja, quando um time está bem, o outro está mal. Quem criou essa sandice não fez um exame histórico das duas maiores agremiações do Estado, para ver a notável ascensão do Inter, vitorioso em todo o começo do século XXI, e em todos os aspectos, e a indigência esportiva, social e financeira do outro lado.
Mas isto só faz com que o tricolismo que grassa nas redações esportivas da nossa midia se exacerbe, se torne raivoso e falso. De quando em quando, um “isento” jornalista se solta e larga o veneno, como foi, recentemente, o episódio do locutor Pedro Ernesto Denardin, contra o Inter e sua Assessoria de Imprensa. É assim que as coisas acontecem por aqui. E há quem ache natural...
É só ler os jornais, ver televisão e ouvir o rádio para verificar que o tratamento dado ao tricolor é inteiramente diferente do tratamento dado ao Inter, com visível prejuízo para este último. E é isto que combato firmemente.

25) Qual a importância da assessoria de imprensa do Clube, e como vê o trabalho de defesa da instituiçao perante algumas notícias da imprensa ?
Acho que a Assessoria de Imprensa do Inter tem sido bastante atuante na divulgação das coisas do clube. Há especial destaque para a Revista e a Tv Inter, em ótimo papel, excelente texto, fotos muito boas. Dentro daquilo que se propôs a fazer , a Assessoria de Imprensa do Inter está fazendo um ótimo trabalho.
Diante de certas notícias que são veiculadas pela nossa “isenta” imprensa, a Assessoria de Imprensa tem agido com presteza e comedimento, rebatendo acusações, retificando notícias tendenciosas, afastando mentiras que buscam denegrir o trabalho dos dirigentes, atletas e funcionários do clube.

26) O que tem de bom e de ruim na imprensa gaúcha ? E o que poderia ser feito para melhorar na sua opinião ?
Ainda com relação à imprensa esportiva, penso que ela deveria deixar de insistir nessa tese da “isenção”, que não engana ninguém, que não consegue iludir ao leitor minimamente instruído, capaz de ler o que está escrito, de ouvir o que é falado, de ver o que está no vídeo. Ninguém é bobo para acreditar nas boas intenções das matérias que são feitas sobre o Inter, com jornalistas sabidamente vinculados ao outro lado ou então, e isto é o pior de tudo, colorados que vivem com medo de revelar a sua filiação esportiva para não perder o emprego.

27) Gostaria de deixar algum recado para os colorados?
Aos colorados, deixo uma mensagem : Acreditem que o Inter tornou-se grande demais e o nosso dever é estar ao lado dele, em incondicional apoio e indormida vigilância contra os que pretendem reduzí-lo ao tamanho de times menores.