Não haveria necessidade de se escrever nada. A campanha do Internacional na Série B é autoexplicativa. Quando achamos que estamos no fundo do poço, sempre aparece uma camada a mais para cavar. O Inter tem 51,5% de aproveitamento no Campeonato. Em casa, o aproveitamento é de 40%. O nosso Internacional, campeão do mundo, ostenta desempenhos e resultados pífios, patéticos. Não consegue se impor contra clubes como ABC, Paysandu, Juventude, Paraná e BOA ESPORTE.

O jogo de sábado foi a gota d'água. Perdemos, dentro do Beira-Rio, depois de uma semana inteira de "trabalho", para um time que havia subido da Série C do Campeonato Brasileiro; que havia subido da série B do Campeonato Mineiro; que tinha, até então, pontuação de Z-4; que não possuí patrocinador, fornecedor de material esportivo e que estava com um técnico interino que é um dirigente do próprio clube.

Pior: O Inter levou um nó tático desse time. Não conseguiu chutar uma bola sequer ao gol. Novamente, o nada flertou com a coisa nenhuma, pois o que se viu em campo foi um time nulo coletiva e individualmente e uma apatia generalizada. Mais uma vez, o torcedor colorado amargurou o gosto de chá de losna após outro fracasso da esquadra alvirrubra.

Esse paradigma já vem se tornando lugar comum na Padra Cacique, pois, recentemente, nos acostumamos com a mediocridade. É a mesma receita, sempre. Um fiasco contra um timezinho qualquer, cobrança, a expectativa pela melhora, os discursos alentadores e esperançosos de dirigentes, e, novamente, o resultado de sempre. É um paradoxo o que acontece no Beira Rio: quanto mais tempo se tem para trabalhar, pior o desempenho. Isso com Zago e, agora, com Guto. O time involui.

Os números são do Twitter do Impedimento. O Inter tem o 2º pior início de Série B entre 8 grandes que já estiveram neste certame; e tem o pior ataque. Ambos os dados analisados da 12ª rodada de cada edição do campeonato.

A pergunta que fica: de quem é a culpa? Sim, porque pode ter certeza de que se um tatu sobe em um toco, alguém o botou lá. Ninguém é filho de chocadeira! Tudo que aí está é fruto, em primeiro momento, de um trabalho coletivo da direção e do departamento de futebol; das convicções dos que estão a sua frente. A convicção de eleger determinado treinador, de contratar determinado jogador e de traçar determinada linha de trabalho. Em segundo momento, da comissão técnica e dos jogadores. É evidente que não se pode cobrar um desempenho cintilante com 1 mês de trabalho da nova comissão técnica com os atletas. Mas, convenhamos, não é necessário aplicabilidade tática, entrosamento, compactação, filosofia de futebol, para ganhar do Boa Esporte, no Beira Rio. O Inter tinha que ganhar naturalmente, mesmo que na base das individualidades.

Se alguém não concordar, então gostaria que explicasse qual o sentido, o nexo, a razão, da diferença abissal orçamentária entre o Inter e os demais clubes da Série B (o orçamento colorado foi previsto em 332 milhões de reais para 2017). Só nas cotas de televisão, por exemplo, o Inter faturará 60 milhões, enquanto o Boa... QUATRO MILHÕES E CEM MIL REAIS. Quero que me explique, logicamente, qual o fundamento de se ter uma folha salarial mensal próxima de 7 milhões. Das duas, uma: ou os jogadores e os profissionais colorados têm de ser infinitamente superiores aos demais ou estamos pagando por uma fraude.

Frente ao exposto, pode-se fazer algumas constatações:

1 – PLANEJAMENTO:

Já se pode afirmar, com toda a convicção, que ocorreu o que de pior poderia ocorrer em 2017, ano em que o luxo de errar não era permitido: o planejamento do Inter foi pensado de forma totalmente equivocada. Isto é um desastre por si só, pois um mal planejamento afeta todos os setores de um clube, o que todos estão vendo, neste momento. É sempre mais trabalhoso ter que corrigir a rota no meio do caminho.

É lamentável estarmos em julho e não termos um desenho de time ideal, de time titular. É lamentável, na METADE DO ANO, ver um time taticamente inócuo. É deplorável estarmos em julho e faltarem peças em posições determinantes (meio campo, lateral direita, zaga). É um atestado de incompetência ter de demitir o treinador com somente 6 meses de atividade, sendo obrigado a dar início a um novo trabalho (e aqui não entro no mérito se foi boa ou não, se necessária ou desnecessária a troca, mas simplesmente constato os fatos, a tragédia colorada). Aproveitando o gancho, já que se optou pela troca, não seria melhor ter trazido um treinador que já se afirmou em um clube grande, que já ganhou títulos de expressão, que tem experiência com pressão e que está adaptado a situações como a que estamos passando? Levir estava livre no mercado. Preterimos apostar, mais uma vez, no trabalho de um ascendente (e um ascendente de alto custo, diga-se de passagem). E se der errado, de novo? Alguém me dirá: com Levir também poderia dar. Concordo. Mas qual é a maior probabilidade de dar certo, com Levir ou com Guto? Veja, não se está aqui tentando contestar o trabalho de Guto Ferreira, que teve pouquíssimo tempo para aplicar sua filosofia, mas simplesmente estou dizendo, nas entrelinhas, que as convicções pessoais, às vezes, tem um custo muito alto para a coletividade. Já vimos esse filme em 2016.

2 - PADRÃO DE JOGO:

Não há quem reste com sua sanidade mental incólume vendo o estilo de jogo colorado. Em primeiro lugar, o festival de bolas alçadas à área sem QUALQUER objetivo. Aliás, está é a única alternativa ofensiva do time colorado. Tocar a bola verticalmente, sem objetividade nenhuma, sem transições, com jogadores estaqueados em suas posições, até chegar à linha de fundo e alçar um balão qualquer sem direção alguma. Com esta dinâmica, os clubes se retrancam, armam um ferrolho, que o Inter não consegue transpor. Pior, sofre contra-ataques e toma gols, quase sempre oriundos de falhas individuais grotescas ou de mal posicionamento.

Outra: digam-me se é preciso ser cientista, intelectual, ou ostentar notório saber futebolístico para constatar que o Inter NÃO TEM meio campo. Não há, além de D'Alessandro, jogadores de toque de bola, de armação, que pensam e organizam o jogo. Daí, pois, a burocracia e a lentidão para se criar qualquer jogada mais aguda. Daí, também, o fraco desempenho ofensivo, mesmo com jogadores gabaritados no ataque, afinal, como proceder, se a bola não chega? Um exemplo, no último jogo. Dourado e Charles, jogadores da mesma posição (1º volante), com as mesmas características, jogando juntos. O resultado era óbvio. Da parte criativa, o desempenho de ambos foi nulo, a saída de bola, lenta. Chegava-se à meia cancha e não se via soluções.

No que diz respeito à parte defensiva, também restam poucos méritos. Fomos a pior defesa do GAUCHÃO. Há uma vulnerabilidade extrema, seja no jogo aéreo ou terrestre, esta, muito fruto da completa descompactação das linhas coloradas.

Para além das questões táticas e de falta de jogadores, há outra que parece estar pior, prestes a decretar o estado de calamidade. A questão da preparação física. Todo colorado sabe que se o Inter não fizer um gol até os 25 minutos do 2º tempo, muito provavelmente não fará mais. Pior: a probabilidade de perder, se o jogo está empatado, é alta, pois faltam as pernas. O físico dos atletas do Internacional está aquém do físico dos jogadores do Boa Esporte. Sim, pois na parte final do último jogo, com um jogador a mais, não conseguimos sequer fazer um bafo, uma mínima pressão que fosse, no esquadrão mineiro.

3 – IMPROVISAÇÕES:

Não há como manter a higidez mental vendo o festival de improvisações que se tornou o time do Inter de um tempo para cá. Argel Fucks fez escola. Acredito que muito possivelmente o próximo passo é abrir uma repartição no Beira Rio, uma espécie daqueles estabelecimentos "faz tudo", em que os jogadores colorados ficarão disponíveis no horário de expediente para atender qualquer empreitada que eventualmente surja.

É um lateral atuando de meia lá, um volante atuando de lateral aqui, um atacante no meio campo, um zagueiro na lateral... E todo mundo acha isso natural, normal, num clube do quilate do nosso.

Gambiarras prolongadas se fazem em times de várzea, não em um clube Campeão do Mundo FIFA, com quase 6 milhões de torcedores. Lateral é lateral. Zagueiro é Zagueiro. Onde está escrito A, leia-se... A. Tão simples e, ao mesmo tempo, parece tão complicado para os que estão à frente da parte vermelha do RS... Vá ver os times que estão jogando bom futebol em 2017, se há gambiarras e improvisações. Vá ver o resultado de se alocar um soldador no lugar de um pedreiro. Com certeza, o produto final não será o mesmo.

4 – ESTADO ANÍMICO:

Frente a tudo isso, o resultado só poderia ser trágico. A combinação série B + fraco desempenho + ausência de resultados, só poderia resultar em pressão da torcida/imprensa (mais que justas), o que, por sua vez, gera uma onda de protestos, que desencadeia a falta de confiança de um elenco que tem café no bule para jogar muito além do que joga. Assim, se instaura o mesmo ambiente calamitoso que causou o descenso vermelho em 2016.

Devemos agradecer que ainda há tempo; igualmente, que a distancia para o primeiro colocado não é tão grande; por fim, que a ruindade na série B é holística. Afeta a tudo e a todos. Mas os outros, diferente de nós, estão de acordo com suas capacidades.

Me encaminhado para o fim, lanço o questionamento: A quem cabe mudar este quadro? A mim, a você, torcedor? Com certeza não cabe a nós.

Já passou da hora dos que estão à frente do Internacional respeitar o seu torcedor! O Inter, hoje, é motivo nacional de chacota e tiração de sarro. Qualquer clubezinho de quinta vem ao Beira Rio e faz o que bem quer. Qualquer jornalista cria crise, insinua fatos, desrespeita o clube. Qualquer estagiário de clube lança provocações e insultos em redes sociais. Está na hora do Inter virar a mesa. Quem pode tirar o clube desse buraco é a própria instituição, com seu staff. Ninguém nos ajudará! A torcida já provou em diversas oportunidades que está e estará ao lado do clube. Sempre faz a sua parte. Quem está em dívida, de há muito, são aqueles que deveriam puxar o processo de retomada.

A maculação à imagem do Inter ocorre há níveis cada vez mais intensos, pois os únicos capazes de frear esse processo (direção, elenco e comissão técnica) conseguem transcender, dia-a-dia, as barreiras do fiasco, do vexame e da humilhação. 

Talvez esteja faltando a percepção de dirigentes e jogadores sobre qual o tamanho do clube que estão defendendo. Talvez esteja faltando vergonha na cara, toda vez que se olha para os contracheques no início de cada mês. Falta, sem dúvida nenhuma, profissionalismo. Mello e Guto falam que não se consegue aplicar no jogo o que vem se treinando. Pergunto eu: qual então seria o mistério, qual o busílis, se se treina tão bem como afirmam? Um indivíduo que está estudando para passar em um concurso, após o fracasso, não busca no caos o consolo para as suas lamentações; ele faz os diagnósticos dos erros e altera a metodologia.

O Internacional jamais será um clube de série B. Jamais! Atualmente, está longe de ter um elenco de série B (se discorda, pare e reflita um pouco). Ora, já se mostrou contra Corinthians, Palmeiras e Grêmio que há potencial. Foram jogos de igual para igual. Entretanto, o Inter tem, hoje, incontestavelmente, um time de série B, e que, se continuar nesse traquejo, não subirá, e conseguirá transpor todas as barreiras do vexame, maculando ainda mais a sua história. 

Por isso, conclamo: RESPEITEM quem se desgasta financeira e psicologicamente por esse clube de futebol tão amado. Respeitem quem paga assiduamente a sua mensalidade. Respeitem quem compra ingresso, quem vai ao jogo, enfrenta sol, chuva, frio e calor para apoiar um arremedo de time. Respeitem quem viaja horas para chegar ao Beira Rio e dar um alento ao clube. Respeitem quem compra camisa e produtos do time. Respeitem quem não pode ir ao estádio, que assiste pela TV, escuta pelo rádio. Respeitem o povão colorado, que sofre em dobro, pois além do jogo, sofre com a elitização do futebol. Respeitem o TORCEDOR COLORADO, que, ao fim e ao cabo, é, parafraseando Cazuza, quem paga por toda essa droga, que já vem malhada há muito tempo. Por fim, RESPEITEM a história vitoriosa e honrosa da instituição centenária que defendem. 

VERGONHA NA CARA, CULHÕES e TRABALHO para honrar seus gordos salários, os hotéis 5 estrelas, os voos fretados, os treinamentos em resorts, e todo o tratamento baseado em pão de ló, custeado por todos nós, torcedores.  

Respeito. Vergonha na cara. Empenho, dedicação e FUTEBOL. Chega de discursos retóricos, Dr. Mello. Subir sendo campeão não é nada mais que a obrigação! O Inter é grande e tem de se comportar como tal. Caso esse não seja o pensamento institucional, por que se gastar 7 milhões mensais? Por que trazer o artilheiro do brasileirão? Por que fazer a contratação brasileira mais cara de 2016? Por que criar falsas expectativas nos torcedores? Por que toda essa reformulação feita no Beira Rio? Por que a necessidade de se fazer um novo CT paradigma? Se se encara como normal perder para o Boa Esporte, dentro da NOSSA CASA - como transpareceu nas entrevistas coletivas após o jogo - que se deixe bem claro que o Inter mudou sua direção. Que vamos mesmo é ser um clube de série B. Que o clube que já ganhou do Barcelona em uma final de Mundial de Clubes, hoje se contenta em ser um coadjuvante. Que isso tudo é normal, e que deveríamos mesmo é se acostumar.

Já passou da hora de acordar! O Sport Club Internacional não é um laboratório de experiências para amadores.

Por: Leonardo Donato / Contato https://twitter.com/leo_donatoo