Zago teve mais do que duas constatações no empate em 2 a 2 no certame de ida da finalíssima do Gauchão, no Beira-Rio, além do primeiro e segundo tempo, quando optou em armar um estratagema completamente equivocado no confronto que a priori dava ao SCI todas as condições de almejar uma importante vantagem no confronto. 

Analisemos que na etapa inicial o time colorado basicamente se resumiu a lances individuais e de um certo desespero que abafou o Novo Hamburgo durante grande parte dos momentos ofensivos, mas era visível e preocupante a desorganização e a falta de coordenação do time como um todo em ser efetivo. Assim como eu mais de 43 mil torcedores esperavam que uma equipe do tamanho do Inter tivesse a preposição articulada do jogo, que transmitisse um certo ânimo e confiança à massa presente, mas o que se percebia notoriamente era o famoso burburinho de preocupação e ansiedade, puro reflexo do time em campo.

FATOR ANSELMO POGBA / O MITO DO EUROPEU

Anselmo não apenas acrescenta pouco ao coletivo como atrapalha tática e tecnicamente. Enquanto Rodrigo Dourado vinha em pleno crescimento atuando em sua posição de origem e fazendo seu papel de maneira impecável, o comandante vermelho resolveu desarrumar a situação no Xadrex interista inserindo o volante Anselmo ao seu lado. O resultado disso foram dois jogadores lentos, pesados, com Dourado tendo que abrir em direção aos cantos do campo e em sua cercania o encaixe de outro peso-pesado, Anselmo, limitado a toques básicos e inoperantes para os flancos. Veja bem, se você fosse o técnico adversário teria praticamente mascado o que fazer nessa situação: marque as alas, encoste no D'alessandro e sempre que Edenílson aparecer, feche as opções de passe. Resultado? O Inter morre.

É uma simples questão de características, ao invés de um meio campo movediço, com certa velocidade, mobilidade, temos em um setor chave do time dois tratores, que sem a opção do passe longo, estão limitados por suas próprias limitações, afinal, não seria coerente pedir para o Anselmo sair em velocidade trocando passes com os laterais ou meias. Um Elefante nunca será um Guepardo.

Por outro lado temos a suposta “segurança defensiva”, tão defendida por treinadores néo-jurássicos de que três volantes significam marcação eficiente e desarmes em grandes escala. Zago cursou na Itália, na Ucrânia, e apesar de todo esse mito europeu parece ter esquecido que está cada vez mais em desuso no Velho Continente – para não dizer em extinção – o uso do volante brucutu, vagaroso, estático, que não tem capacidade nenhuma de articulação e comete uma enormidade de faltas em detrimento de desarmes chaves e bom posicionamento de recomposição. Querem exemplos?

O Borussia Dortmund joga geralmente com um volante de grande qualidade técnica, Weigl, quando muito tem dois, os técnicos Gonzalo Castro e/ou Raphael Guerreiro. O Bayern geralmente tem Thiago Alcântara ao lado de Xabi Alonso, um muito técnico e outro excelente lançador. O Real? Kross, Modric. Barça tem Sergio Busquets e Rakitic. Liverpool joga com um volante mais fixo de alta classe, como Henderson, com Can e Wijnaldum em ambos os lados, com grande chegada na frente e técnica.

Entretanto peço cautela aos amigos e esclareço aonde quero chegar: não estou afirmando que temos qualquer jogador do mesmo nível que os clubes europeus nestas posições, mas que ESSENCIALMENTE a estratégia e a formatação posta com dois primeiros volantes são frontalmente opostas a um método moderno e tido como europeu, projeto esse tão eloquentemente citado por Zago.

Muito pelo contrário, fazendo uma busca mais aprofundada você encontrará que mesmo times mais humildes também utilizam esse tipo de esquematização, ou seja, não cabe mais equipes com jogadores sem qualidade técnica mínima, lentos, enfrentado oponentes com onze jogadores recompondo, marcando e fechando os espaços, basicamente seria um tiro no pé.

Portanto e para finalizar, Zago tem demonstrado e insistido em uma proposta de jogo jurássica – tão simpática a “Argeis e Celsos Roth's” - que ruma cada vez mais ao desuso mundo afora em detrimento do medo de perder (única razão que me parece razoável para sua utilização).

Veja bem que não estou afirmando de maneira oportunista que venceríamos os jogos simplesmente por estarmos sem Anselmo, mas  que seu método por essência é ultrapassado. Basta fazermos uma  observação empírica simples e perceberemos o pouco rendimento demonstrado pelo nosso time. Portanto, Zago, antes de vestir um terno com toda uma simbologia europeia assuma seu compromisso de modernidade e aja de acordo.

Se fomos enganados em 2016 por resultados positivos em certos momentos em detrimento da produtividade não podemos cair no mesmo erro avaliando nosso trabalho coletivo por algumas defesas milagrosas em um pênalti.

Faz-se necessário um oceano de racionalidade nas vitórias e um pingo de otimismo nas derrotas mas apenas quando percebemos escolhas coerentes e aceitáveis. Pelo bem do Inter e do futebol brasileiro precisamos de qualidade de projetos e não do "mais do mesmo". Um futuro vencedor começa no presente em uma base solidificada no rendimento desses conceitos.

Por Alan Rother - Contato: https://twitter.com/Celta_Bardo