Confesso que nunca estive tão pessimista para um Gre-Nal. Um jogo é um acontecimento invevitável. Um Gre-Nal, mais que isso. Uma tortura inevitável. Para ambos os lados.

Tenho tentado apreender com os macacos velhos da resistência vermelha, mormente neste período conturbado e árduo, que um colorado sempre deve ser pessimista. Está no DNA. Supor que qualquer coisa virá fácil para o Inter é um desprezo a nossa história ou um ponto muito fora da curva. O sofrimento, a angústia, o tormento, são sentimentos que inexoravelmente vão rondar o corpo e espírito de um colorado, a partir do momento em que este escolheu o vermelho para seguir.

O problema é que nas pouco menos de duas décadas que sou torcedor, praticamente só vi glórias, vitórias e atuações que beiravam o realismo mágico. Com sofrimento, é claro. Mas com triunfo.

Nessa esteira, não vi um Gre-Nal em que o Inter entrasse desacreditado, por ser de forma considerável inferior tecnicamente ao tricolor. Talvez o deste sábado foi o que teve a maior diferença favorável ao lado azul nas últimas décadas (não pelo elenco, em si, que não são tão discrepantes, mas pelo momento e tempo de trabalho das duas equipes).

Mas, diante do anúncio de um Grêmio ~ copeiro y peleador ~ "penta campeão" da Cop(inh)a do Brasil, com um time formado e pronto, apto a disputar a Libertadores, com um treinador que de tão sábio e onipotente não precisa estudar - e que foi melhor que Cristiano Ronaldo quando jogador, pois este só tem força (sic) - me pareceu haver bastante sensacionalismo de algum lado. Pode ser que eu esteja enganado.

Um time a pouco rebaixado, em processo de reconstrução e com pouco mais de 2 meses de treinamento concreto deu trabalho à máquina tricolor em pleno seu (?) estádio. Colocou-a na roda, em alguns momentos. Vi um time vermelho com muita garra e cojones em campo, principalmente no 2º tempo, e melhoras significativas em alguns setores, essencialmente no que diz respeito à organização e troca de passes.

Obviamente ainda sofremos do estrago monumental e indelével ocasionado por Piffero e sua trupe, com auxílio direto de Argel e Roth, e com a participação cativa de algumas nabas fantasiadas de jogadores. Foram muitos dias com sabor amargo de chá de losna na boca, com uma bola de tênis engasgada na garganta e um trabalho onde o nada flertava com a coisa nenhuma. A superação desta combinação trágica é tarefa morosa e complexa.

Há problemas diversos que dependem de tempo e entrosamento para serem corrigidos. Há, ainda, as improvisação, gambiarras e os gatos. Há problemas sérios de compactação defensiva e de transição defensiva lenta.

É inconcebível termos em campo - e isso tem parte de culpa e teimosia do treinador - em pleno ano de 2017, pós maior fiasco da história alvirrubra, Paulão e Anselmo como opções. É um tapa na cara do torcedor. Foram símbolos do descenso. Continuam errando, e ninguém faz nada.

O primeiro, nem mesmo Freud conseguiria explicar porquê raios ainda não está a uns 10 mil quilômetros da Padre Cacique, trancafiado em um quarto com somente água, comida e uma TV 21 polegadas, que repete várias vezes ao dia um videoclipe com seus melhores piores lances em 2016, ao som do tema de abertura da Grande Família. Dentre o elenco rebaixado, foi, sem dúvida alguma, o mais comprometedor. Entregou, por erros diretos, grosseiros, estúpidos, amadores, mais de uma dúzia de pontos no Brasileiro (nem vou comentar das falhas indiretas que restaram em gols, dos erros enfadonhos que não tiveram o condão de ensejar gol, e dos balões desesperados completamente a esmo). Brigou com a torcida repetidas vezes. É arrogante e petulante. O mais curioso é ver torcedores que, mesmo sem entorpecentes, álcool ou disfunção comprometedora de visão ou de discernimento, aplaudem e ovacionam este cidadão, na vã esperança de que algo mágico lhe acontecerá capaz de remover do seu ser toda a podridão (eu não esqueço dos jogadores que conseguiram levar o Inter aonde nem mesmo os sofríveis e, paradoxalmente, gloriosos, jogadores da década de 90 levaram...).

O segundo, é um volante que não desarma, não arma, e não se posiciona. Aliás, arma... contra-ataques pro rival. Se olhar de soslaio, bate até na mãe, se duvidar. É daqueles jogadores que jamais pode estar num time, pois por mais bem que eventualmente esteja na partida, sempre vai entregar o ouro quando se avizinha o entardecer.

Peças de uma engrenagem que ainda não foram repostas...

Entretanto, como mencionei, nem tudo são pedras. Aliás, longe disso. Há jogadores novos com qualidade. Há uma evidente melhora na compactação e organização do time da parte central em diante (embora longe do ideal). Há construções criativas de jogadas e alguma transição mais elaborada no ataque, em que pese o time ainda abuse da horizontalidade. Sugiro reverem a construção do 2º gol colorado no GreNal desde o princípio. Aquilo ali é mão de treinador. Tem um trabalho. Saímos do nada para alguma coisa.

Conseguimos vislumbrar, mesmo que minimamente, a possibilidade de voltar a ter aquele Inter forte de outrora, organizado, marcador e dominante. É preciso dar sequência a Zago. É preciso que Zago adeque as escalações e deixe a teimosia - que já derrubou tanto treinador - de lado. Paulão não pode jogar! Anselmo não pode jogar! Nico, o cara de 30 milhões de reais, tem de ser titular. E, por fim, é preciso dar a Zago ao menos mais duas peças. Em especial, um volante que saiba sair jogando e que chegue à frente (não podemos ter a pretensão de apostar todas as fichas no garoto Charles). E um meia de qualidade (obviamente são escassos, daí, pois, a necessidade de um bom departamento de futebol). O mito, ídolo e interminável D'Alessandro não poderá jogar todos os jogos. Afora ele, não temos grandes opções para a armação (a não ser que usemos da famigerada gambiarra colocando Valdivia, Seijas ou Roberson na função...).

Enfim. Não fiz curso com Mãe Dináh, tampouco sou discípulo do vidente Carlinhos. Acho profetas e videntes uma ofício para seres diferenciados (rsss). Analiso fatos. E, por isto, acredito que com algumas modificações, com peças novas pontuais, pode ser que o ano de 2017 realmente seja o da reconstrução. Temos, é claro, que envidar todos os nossos esforços em subir, e, na medida do possível, com folga, mas não podemos perder de vista a oportunidade de, neste momento, construir uma base forte para voltar em 2018 por cima.

Dizem que depois da tempestade sempre há de vir a calmaria. Talvez seja um dos poucos ditados populares dotados de alguma lógica. Pode ser cedo para cravar algo, mas me parece que depois de um vasto lapso temporal mergulhado no estrume, flertando com o gramunhão, em pessoa, e passando por todos os tipos de tormentos dantescos imagináveis neste mundo terreno, finalmente se avista uma luz no fundo do abismo em que o Inter se meteu. Para bom colorado, qualquer fecho de esperança já é um prelúdio e um motivo para acreditar neste clube de feitos tão relevantes e improváveis.

Que venham dias melhores para o nosso colorado. E dias mais felizes para nós.

Forte abraço!

Por Leonardo Donato / Contato: https://twitter.com/leo_donatoo