Texto por Colaborador: Redação 28/02/2021 - 05:12

O encerramento do Campeonato Brasileiro de 2020 terminou com comemoração do São Paulo pela conquista da vaga direta e com o Internacional lamentando o vice-campeonato. Dois meses antes, no entanto, esse cenário seria inimaginável ou até bizarro para ambas as torcidas devido ao choque entre “expectativa versus realidade”. Uma imponderável reta final sob o comando de Abel Braga, todavia, aflorou nos colorados uma chama de que estava chegando a nossa vez após um tabu entalado na garganta de 41 anos.

Recorde de vitórias nos pontos corridos, triunfos impossíveis sobre pequenos, goleada no Morumbi, virada milagrosa no GreNal... parecia que as constelações do destino falavam através das quatro linhas: podíamos jogar muito, pouco, ter vários desfalques importantes pelo caminho, não importava, todo jogo era três pontos na bagagem. Tudo caminhava nessa direção até que um discurso apavorado de medo começava a ecoar nas bandas vizinhas do Humaitá. Estava nítido e claro, se nada aparecesse pelo nosso caminho, o Internacional seria campeão.

Acusações de “esquema” em seguidas coletivas, teorias da conspiração ridículas defendidas nas redes sociais, toda uma narrativa fora sendo criada – isso sem falar de um segundo tempo debochado de um time na Arena – até que palavras começassem a transparecer em ações e, caindo no colo do clube mais poderoso e influente do Brasil, o que era a “banca paga e recebe” se tornou “apenas o Inter paga e o Flamengo só recebe”. Erros consecutivos na reta final somaram-se a uma equipe que já estava no limite, mas que tendo agora a sorte sempre contra, já fazia um milagre em disputar uma competição contra um time 10 vezes mais caro e com menos desfalques.

O monstro se tornou maior do que esse grupo poderia suportar e após a derrota no Maracanã estava sacramentado o desfecho: destruíram o mental da equipe para uma última rodada decisiva frente um time do Corinthians que entrou para empatar como jamais visto em 38 rodadas. Ter a bola, assim como contra Goiás, Sport, Coritiba sempre fora nosso ponto fraco e, graças a tudo isso, perdemos o campeonato no Rio de Janeiro (quando fazíamos um jogo superior), não no Beira-Rio. Caímos no ledo engano de projetar os jogos pela tabela – ou seja, se está no G4, é difícil, se está no Z4, é fácil - mas pouco pelas características das equipes. O Liverpool supercampeão inglês do ano passado vencia com mais “facilidade” seus rivais de G4 do que equipes como Burnley, Napoli, Atlético de Madrid ou Newcastle, assim o mesmo vale para o Inter de Abel. Por incrível que pareça enfrentar times grandes que atacam sempre foi o grande trunfo na manga do treinador, elemento que ficou claro em todos embates frente Boca, Atlético-MG, Grêmio, SP, Flamengo ou Palmeiras.

Esclarecendo esse primeiro ponto, ou seja, da clara injustiça sofrida nesta reta final - que alguns denominam como “azar” ou falta de “força política” – após o lobby gremista-flamenguista, gostaria de olhar para dentro do SCI tentando fazer uma autocrítica e analisar nossa posição no quadro atual.

Racionalmente acredito que todos os torcedores possuem a consciência de que não temos o melhor grupo do país. O vice-campeonato de certa forma não reflete exatamente a qualidade do nosso time, principalmente após lesões de 5 titulares. Assim, o que o Inter de Abel fez no último terço da competição foi quase impossível, estando dependente em grande medida à capacidade de liderança e aglutinação do experiente comandante, somadas conjuntamente por suas estratégias terem se adaptado muito bem em boa parte dos jogos ao estilo dos jogadores.

Sob essa perspectiva, penso que podemos fazer algumas avaliações genéricas mas não menos válidas:

+ Temos uma boa base que poderá nos manter na briga pelos títulos.
- Faltou um algo a mais para esse time em determinados momentos (capacidade de liderança, qualidade técnica para fazer o diferente, uma equipe com mais de uma estratégia para determinados jogos)

Mal comparando mas já comparando, vejo o momento do Internacional muito próximo ao de 2005: uma equipe que saiu do meio da tabela para disputar na parte de cima mesmo ainda em formação, em um processo iniciado anos antes e também com um alicerce carimbado por derrotas na hora H para Boca Jrs 2x, Paulista de Jundiaí e Corinthians (mesmo sendo daquela forma, dizia-se algo semelhante à hoje, ou seja, bastávamos ter vencido adversários como Goiás, Paraná e Ponta Preta que chegaríamos praticamente campeões antes de irmos ao Pacaembu), precisando de pequenos grandes detalhes para aumentar a qualidade técnica, tática - sobretudo com jogadores com passagem pela Europa - , de lideranças com personalidade vencedora e traquejo em decisões. Perfis como Iarley, Fernandão, Tinga, Índio precisarão ser garimpados para dar um ‘plus’ em um elenco atual interessante mas que não cresce justamente nos momentos decisivos. 2021 se vislumbra como uma temporada diferente de 4 anos atrás quando não poderíamos nem imaginar situações como essa à medida que restava-nos lutar para encontrar nomes confiáveis em setores chaves do time. Felizmente essa época já passou e estamos num estágio de minúcias, da cereja do bolo.

Portanto, mesmo com a tristeza da última quinta-feira parece plausível transmitir aos mais de 7 milhões de colorados uma mensagem de esperança porque existem razões para tal, não se tratando somente de uma crença vazia.

Pode parece fácil disputar títulos mas esse caminho é quase sempre tão duro e árduo como dar o salto para o título. Na década de 90 passamos anos seguidos disputando o meio da tabela, sem perspectiva de absolutamente nada, e chegar era tão raro como encontrar água no Saara. Em 2018 tivemos o azar de pegar um Palmeiras muito superior e nos tirar da briga, em 2019, Flamengo e Athletico (que vivia melhor momento naquela reta final), este ano novamente caímos com o Flamengo, contudo, se seguirmos disputando no topo estatisticamente haverá um momento em que grandes equipes cairão pelo caminho e, quando menos percebermos, em vez de precisamos vencer um time muito forte o próprio sorteio acabará te beneficiando (como um Botafogo, Lanus ou Barcelona) ou seremos nós que chegaremos em um melhor momento, ainda mais com uma base mais sólida e qualificada. Para ter sorte nas retas finais é preciso sempre disputá-las. Duvida? Algo muito semelhante aconteceu com o Liverpool de Jurgen Klopp: três decisões perdidas em sequência (Sevilla, que vivia um super momento na Liga Europa, Real Madrid e City), até que no ano seguinte enfrentou o Tottenham, time bem mais acessível do que os espanhóis e a chave virou com praticamente 80% dos XI mantidos.

Por fim, embora a frustração nos faça por vezes pensar que nada presta e que é preciso mudar tudo, se analisarmos com parcimônia também podemos enxergar o copo meio cheio e deduzir que Abel & Cia deixaram um legado de boas capacidades que serão essenciais para um salto importante em 2021. A meta, deste modo, parece indicar que faz-se necessário seguirmos competitivos e disputando títulos, é assim que se alcança a glória, seja comparando nossa ou qualquer outra história. Poucas equipes ressurgem campeãs de uma hora para outra.

Não devemos baixar a cabeça mas levantar. Com muito menos e contra todo o poderio político carioca – ciente da maneira que apitaram nos últimos 4 jogos - perdemos por apenas um ponto, um gol. Com um pouco mais de capricho nem tudo isso contra poderá nos deter, tal qual em 2006.

Por Alan Rother 

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